O melhor filme que você verá esta semana acaba de estrear na Netflix

“Um Pequeno Favor” tem o condão de equilibrar-se entre o drama, o mistério, a investigação de um crime quase óbvio — e frise-se o advérbio — e uma comédia que não se furta a assumir tons ridículos sempre que pode. Em mãos imprudentes, a audácia decerto degeneraria num arrastar sem fim de cenas que nem teriam graça nem empolgariam ninguém, mas Paul Feig tem tarimba o suficiente para lidar com as complicações de cada um desses gêneros, e em todas as cenas de seu filme é notória a sensação de que os elementos, um por um, encaixam-se de modo a fazer da história uma unidade assombrosamente coesa.

O diretor parece querer reproduzir, em escala industrial, os acertos de “Missão Madrinha de Casamento” (2011), aos quais junta os componentes detetivescos de “Garota Exemplar” (2014), o clássico do cinema recente dirigido por David Fincher sobre uma esposa acima de qualquer suspeita que enreda o marido no próprio desaparecimento. O roteiro de Darcey Bell e Jessica Sharzer, é inegável, tem muitos pontos de contato com o trabalho de Fincher — o que é um constrangimento ainda maior quando se leva em conta que o longa é uma adaptação do romance epônimo de Bell publicado em 2017—, mas também não se pode negar que Feig vira o jogo em mais de uma ocasião, torcendo a narrativa a seu gosto.

Stephanie Smothers, uma dona de casa do subúrbio de Nova York, depois de Nova Jersey, mantém um canal sobre afazeres domésticos numa plataforma de vídeos, mas encontra (muito) tempo livre para se voluntariar em todas as atividades da escola do filho, Miles, a ponto de a professora do garoto ser obrigada a insinuar que os outros pais também queiram tomar parte na condução dos trabalhos pedagógicos e extracurriculares da turma.

Esse seria o ambiente perfeito para se fazer novos amigos, que ligados entre si pelo mais urgente dos assuntos, mas a todo instante paira sobre Stephanie a névoa de tensão com a qual convive muito bem, e, em sendo assim, os anos se sucedem e ela permanece completamente isolada, criando sozinha o filho único depois da morte trágica do pai da criança e o meio-irmão que conheceu no dia do velório do pai, o primeiro enigma de “Um Pequeno Favor”, que Feig esconde bem.

Surpreendentemente, aos poucos, quem se aproxima dela é Emily Nelson, uma ex-modelo que hoje cruza o planeta assessorando as novas top models da agência de Dennis Nylon, com Rupert Friend numa ponta rápida, mas que dá um pouco mais de sabor a uma história eminentemente feminina. Emily, uma espécie de intermediária entre Kate Moss e Gisele Bündchen, é o reverso do espelho da nova amiga, e Blake Lively, magnífica, e Anna Kendrick, não menos brilhante, esticam a corda de uma amizade improvável, mas urgente, até pouco antes do carrossel de revelações de uma e outra, momento em que o filme torna-se muito semelhante à trama de um suposto rapto contada por Fincher quatro anos antes.

Feig escapa da armadilha da comparação incluindo no enrosco Sean Townsend, o marido de Emily interpretado por Henry Golding. Esse triângulo, menos amoroso que lascivo, é o que distingue um filme do outro, captando o interesse do público até o desfecho, meio previsível, mas emocionante assim mesmo.


Filme: Um Pequeno Favor
Direção: Paul Feig 
Ano: 2018
Gêneros: Comédia/Drama/Suspense/Thriller
Nota: 8/10

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