Anatomia de uma Queda e a dissecação da verdade

“Anatomia de uma Queda” (2023) entrou em cartaz, no Brasil em 2024. Sob direção de Justine Triet, que também assina o roteiro juntamente com Arthur Harari, alcançou a Palma de Ouro, em Cannes. Trata-se da história do julgamento de Sandra, vivido pela atriz alemã Sandra Hüller, uma escritora bem-sucedida, que mora com seu marido Samuel (Samuel Theis) e seu filho Daniel (Milo Machado Graner), em uma casa no alto de uma montanha, em Grenoble. Nesse cenário, ocorre a morte misteriosa de Samuel, um professor e escritor com uma carreira em decadência.

A morte é considerada suspeita, o que torna automático um inquérito policial. A investigação não consegue concluir, definitivamente, se a causa da morte foi por assassinato ou por suicídio. Sandra é indiciada e vai à julgamento em um tribunal de acusação. Nesse ínterim, Daniel é sugado para o caso, como única testemunha. Deficiente visual, Daniel precisa dar seu testemunho a partir do que ouviu e do pode falar sobre sua vida em família. Em meio a uma “confusão de línguas” onde pairam dúvidas sobre a inocência de sua mãe, Daniel se encontra diante de um impasse sobre a verdade.

O filme é descrito, em diversas sinopses, como: um drama policial, suspense, suspense de tribunal, suspense dramático, drama sério com suspense de tribunal. Em todo caso, drama, tribunal e suspense, termos constantes no conjunto das classificações, parecem coadjuvantes ao debate que surge como pano de fundo da película: a realidade como ficção. 

Na epígrafe acima, Barthes aponta para a cultura de massa como algo que está aí para todos. Partindo da observação barthesiana, encontramos em “Anatomia de uma Queda”, o recurso a um tema cinematográfico da cultura de massa, o tribunal. Entretanto, o que é explícito, mas não aparente, na narrativa, é o não-dito como tema que borda a edição das cenas com o fio-condutor da verdade como realidade factual. Nesse sentido, podemos fazer um paralelo entre um filme francês, que é um contraponto narrativo e estético ao que comumente ocorre com os filmes da tribunais de origem americana.

Enquanto “Anatomia de uma Queda” toma em seus braços o mal-estar presente nas duas horas e meia de filme, onde se cinge a impossibilidade da certeza factual com tentativas de respostas objetivas, possíveis às contingências do laço social; a tradição americana apresenta histórias em que se busca a verdade dos fatos arrematados por ápices dramáticos ocorridos na definição da história.

A fantasia é o que liga os sujeitos, já dizia Lacan. É o que permite afirmar que o inconsciente é a política. Por essa via, a verdade ocorre como uma função discursiva na qual o sujeito se posiciona na realidade a partir do que a fantasia lhe oferece como horizonte possível, cujo além, o impossível do real, ronda como insuportável. Sim! É insuportável a impossibilidade do que não tem sentido, por isso o personagem Daniel, diz, em uma crise de tristeza e angústia, que não suporta não saber o que ocorreu com seu pai. Ele afirma que precisa saber!

Daniel é um garoto com deficiência visual que parece atuar como uma metáfora para uma fantasia comum e masculina de que o poder do saber garante o controle integral da realidade e dos sentimentos. “Anatomia de uma Queda”, um filme dirigido e escrito por uma mulher, tem um recorte de gênero sutil, mas brutal. O fio metonímico da “queda”, desde o início, é introduzido por uma bola que cai da escada, mas passa para a queda do corpo de um homem, cuja história, ao ser reconstituída, é a da queda narcísica de um homem que, ao se deparar com o sucesso intelectual da esposa e a sua queda criativa e profissional, culpa-a por suas escolhas, recorrendo ao tema mais desconcertante na história do masculino: a sexualidade feminina.

No filme, o julgamento se apresenta como uma dissecação que percorre a anatomia dos fatos, prescrutando a vida do casal, tentando se basear em evidências que, na sucessão de especialistas, incorrem na sustentação de uma fantasia imprecisa baseada em versões de provas factuais. Sim! A questão central da verdade é até que ponto pode-se contar com uma precisão constituída pela junção de versões. Deste modo, o julgamento oscila tensionando a veracidade objetiva sobre a morte de Samuel, com as versões que o júri acreditará.

 A questão do que se fala é pontuada por Lacan à contrapelo da ideia de que o analista não fala. Para ele, o analista tem sim coisas a dizer, mas seu dizer é da ordem da verdade. Por isso, Lacan retoma a questão do mito, aproximando-o ao dizer da verdade como uma estrutura de ficção, ou seja, de sua sintaxe. É o que permite deduzir que a verdade tem uma estrutura de ficção, pois ele é efeito da linguagem. Isso nos leva ao ponto central de “Anatomia de uma Queda”, a queda da ideia de uma verdade final.

Do auge redentor do espírito que nos aliviaria do mal-estar com o bálsamo da certeza. O julgamento, eixo fundamental da trama, se mostra incapaz de emoldurar a verdade sobre a morte de Samuel. Uma metade da verdade aparece como certos fatos, suas versões baseadas em evidências mensuráveis e visíveis, mas há o que retorna a cada cena, a impossibilidade de se dizer tudo, de esgotar a verdade, dizê-la toda. O impossível de se dizer só pode ser cingido e tecido como versões, como mitos do real.

Nesse sentido, o feminino, novamente, se introduz a partir da personagem Marge, encenada pela atriz e cantora Jehnny Beth, designada pelo tribunal para acompanhar Daniel. Marge age como uma psicanalista que, em sua função de não induzir sentidos ou versões, na iminência angustiada do ato de Daniel, o acolhe de modo a não parar seu processo de criar uma experiência produtiva na indeterminação causada pela impossibilidade da certeza final. Neste momento, uma escolha foi feita, a de qual versão ele acolheria.

O tema da escolha nos traz para um “entre” que comporta a questão da realidade e da verdade. Daniel fica diante de uma realidade do sujeito do conhecimento, do “Eu preciso saber”, mas que é deslocado pela impossibilidade de saber que o faz reencontrar sempre com o resto que cada versão sobre a morte de seu pai deixa cair.

Daniel, se vê entre uma fantasia de certeza em que o saber traria alívio e o Dasein que o convoca à estrutura da verdade na queda da certeza garantida: “Anatomia de uma Queda” Entre os dois, é preciso escolher. Essa escolha é escolha do pensamento como aquilo que exclui o “eu sou” do gozo, um “eu sou” que é “eu não penso”. A realidade pensada é a verdade da alienação do sujeito, é seu rechaço para o “des-ser”, para o “eu sou” renunciado.”  “Da Psicanálise em suas Relações com a Realidade”, de Jacques Lacan).

Somente a partir de seu ato de escolha diante da incerteza das diversas versões da realidade, Daniel pôde rememorar uma fala de seu pai como uma mensagem de despedida, até então disfarçada de fala cuidadosa. Algo doloroso que pode ser recordado e elaborado a partir da sintaxe do texto no contexto, para assim ser levada ao tribunal. A fala de Daniel não é um ápice emocionante de salvação e redenção da mãe, mas uma fala cuja materialidade está apenas e suficientemente na forma relacional das palavras ditas, não nas evidências factuais das medidas e testes. A evidência disso é a continuidade do mal-estar, mesmo no alívio subsequente à sentença.

Mais do que um filme de tribunal, “Anatomia de uma Queda” é um convite para uma análise comparativa entre o que fazer com o mal-estar da incerteza pela falta de garantias da verdade e a fantasia viril de saber/poder sobre a verdade. Fantasia esta, responsável pela queda subjetiva que leva muitas pessoas ao sofrimento, encontrar o abismo non-sense do Real.

Talvez o paralelo que podemos extrair do filme seja entre os que dançam à beira do abismo e os que nele caem por andar olhando desavisadamente para o céu estrelado da razão. Ou ainda, parafraseando Nietzsche, entre os que correm atrás das incertezas e dos que preferem o nada seguro para se deitar e morrer.

Portanto, voltando à Barthes, “Anatomia de uma Queda” nos apresenta uma sintaxe da verdade à revelia da semântica do saber/poder sobre a verdade. Um filme em Outro idioma, que caminha entre idiomas diversos (inglês, francês e uma protagonista alemã) que insistem em se traduzir, apesar de não se entenderem. Um filme que abre uma escuta, uma outra posição no avesso do lugar comum da autoridade da certeza. Um filme em que a importância da sintaxe desnuda a impostura da certeza factual por meio da materialidade da estrutura de linguagem. Um filme que demanda que o espectador se deixe cair, sofra uma queda do sentido, para que o mal-estar silencioso presente na trama, possa falar.

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