Crítica | Orion e o Escuro

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Existem inúmeros filmes e diretores que têm o hábito de subestimar o espectador, explicando suas tramas de maneira excessiva e não permitindo que quem assista tenha a oportunidade de experimentar e refletir sobre o filme por si próprio. Diante desse cenário, nos deparamos com obras que se elucidam constantemente, quase fornecendo um “final explicado” para si mesmas (pessoalmente, desgosto de qualquer coisa que me explique um filme). Christopher Nolan, por exemplo, é um mestre nesse aspecto; ele tende a abordar seus filmes como se fossem os mais complexos do mundo, dando a entender que seu espectador jamais os compreenderá, o que, de certa forma, prejudica a construção de suas obras. No entanto, tudo no universo cinematográfico é uma técnica; seja o CGI exagerado, um jumpscare ou uma narração em off, tudo depende de como é integrado à própria narrativa do filme. Dessa maneira, a autoexplicação pode ser eficaz se contextualmente for bem inserida, e não apenas como uma tentativa de se colocar acima do espectador, como parece ser o caso de Nolan. Nesse contexto, o novo filme da Netflix, Orion e o Escuro, lida muito bem com essa abordagem “explicativa”. Na verdade, o objetivo aqui é alcançar o máximo de criançasadultos e fazer com que compreendam a “mensagem” do filme, quase como um cinema educativo ao qual nós, brasileiros, nos acostumamos a apreciar na TV Cultura.

Orion e o Escuro narra a história de um menino medroso que teme a escuridão mais do que tudo, Orion se assusta facilmente com qualquer coisa, desde lugares altos até insetos, valentões da escola e muitos outros elementos. No entanto, nada o apavora mais do que a escuridão, levando-o a fazer de tudo para amenizá-la na hora de dormir. Em uma noite de apagão, a própria Escuridão fica tão surpresa com o tamanho do medo do garoto que decide visitá-lo e mostrar que não há motivos para temê-la. Junto com outras entidades da noite (sono, insônia, sonho, silencio e barulhos estranhos), a Escuridão leva Orion em uma jornada pela noite para que ele enfrente seus medos.

Orion e o Escuro é um filme baseado no homônimo livro infantil e é interessante notar como a estrutura do filme se assemelha a uma história que costumamos ler para crianças antes de dormir. Ele traz aventura, diversão, mas, acima de tudo, uma moralidade que se insere no subconsciente daquele pequenino espectador. O filme de Sean Charmatz parece preocupar-se com a saúde mental de nossas crianças, abordando os medos de forma habilidosa, ao mesmo tempo que respeita esse sentimento — afinal, sentir medo é tão natural quanto qualquer outra emoção e deve ser experimentado —, porém sem permitir que ele domine por completo. É amplamente reconhecido como essa fase da infância é crucial, pois a criança começa a compreender o mundo ao seu redor, e tudo o que é novo pode gerar inseguranças e medos. Portanto, é admirável observar como Orion e o Escuro respeita essa fase e os sentimentos que a permeiam, o que, ironicamente, ressoa conosco, adultos, provocando reflexões sobre nossa própria criança interior, nossos medos e inseguranças. Quantos de nós não nos identificamos com Orion; um menino que claramente sofre de ansiedade e está constantemente preocupado, onde tudo ao seu redor parece assumir o pior cenário possível?

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O filme escrito por Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembranças) exemplifica a teoria do cinema como espelho, fundamentada nos ideais do psicanalista Jacques Lacan. Segundo esta teoria, o cinema atua como um reflexo dos conflitos, ansiedades e desejos mais profundos do espectador. Os filmes proporcionam um ambiente seguro para explorar questões emocionais e psicológicas que podem ser difíceis de enfrentar na vida real. Ao se identificarem com personagens, situações e temas apresentados na tela, os espectadores podem projetar suas próprias experiências e emoções, levando a insights e compreensões pessoais. Um dos conceitos fundamentais da teoria psicanalítica do cinema como espelho é a noção de identificação. Os espectadores podem se identificar com personagens que representam aspectos de si mesmos, tanto positivos quanto negativos. Esta identificação pode desencadear respostas emocionais intensas e proporcionar uma sensação de conexão e compreensão.

Diante disso, eu, quem vos escreve, particularmente me identifico muito com o papel de Orion; tudo ao meu redor parecia ser o pior, eu temia tudo. Minha mente pregava peças o tempo todo, e ver como Orion e o Escuro ensina a respeitar meus sentimentos, sem, contudo, permitir que eles se tornem maiores do que merecem, me fortalece. Isso me faz refletir que aquele Caique nunca esteve sozinho, me faz olhar para mim mesmo de forma diferente, me incentiva a enfrentar meus medos e a reconhecer meu próprio valor. Esta foi a experiência de um homem de 23 anos. Imagine o impacto que isso pode causar em uma criança.

Orion e o Escuro destaca-se por abordar questões fundamentais relacionadas à superação e à inteligência emocional. Através das interações de Orion com o próprio Escuro e outras entidades da noite, somos conduzidos a explorar as complexidades das emoções humanas e como elas influenciam nossas vidas. Aprender a reconhecer e gerenciar nossas emoções é uma habilidade crucial para o bem-estar emocional e o sucesso na vida, e o filme oferece uma valiosa lição nesse sentido. A jornada de Orion nos recorda da importância de enfrentarmos nossos medos e inseguranças para alcançarmos nosso estado de liberdade. Ao invés de evitar o desconhecido, o filme nos encoraja a abraçá-lo e a encontrar força na adversidade. Atribuindo-se ao cinema educativo, o novo filme da Netflix, de forma lúdica, nos incentiva a sentir, a nos respeitar, mas, acima de tudo, a viver sem as amarras de nossas inseguranças.

Orion e o Escuro chegou no catálogo da Netflix no sexta-feira dia 2

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